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Trate-me Leão

Martha Medeiros

Uma peça chamada “Trate-me Leão” deixou a minha geração de queijo caído. Agora, o texto volta em forma de livro, mas não é a mesma coisa.

Acaba de sair em livro o texto de uma peça que marcou minha juventude. Trata-me Leão entrou em cartaz em Porto Alegre no finalzinho dos anos 70, no finado Teatro Presidente, e deixou minha geração de queixo caído. Pela primeira vez, assistimos no palco a um elenco de amadores falando sobre o próprio umbigo (e sobre o umbigo da plateia) com uma atuação naturalista até então inédita. Quem era aquela dentuça engraçada, aquele jerivá, aquele gato, aquela charmosona? Eram os ilustres desconhecidos Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Evandro Mesquita e Patricia Travassos, pra citar apenas os que acabaram virando ilustres conhecidos. E ainda tinha Nina de Pádua, Perfeito Fortuna e Fabio Junqueira, todos eles inaugurando o que mais tarde seria o humor da TV Pirata, da Comédia da Vida Privada, de Os Normais, estes programas que nos conquistam quando entram no ar e deixam a maior saudade quando saem.

Não acredito que o texto lido hoje, isoladamente, vá encantar aqueles que não acompanharam as peças da trupe Asdrúbal Trouxe o Trombone – era este o nome do grupo. Sem o componente nostálgico e a lembrança dos atores em cena, o texto fica quase pobre, não se sustenta, a não ser por um ou outro achado (foi nesta peça que foi criado o bordão “mãe é mãe, só muda de endereço”). Brilhante mesmo era a encenação, o talento de cada um deles, o rugido daqueles sete leões que se negavam a ser domesticados, que desejavam sair da jaula, que não queriam mais saber de domadores.

Ainda somos estes leões, e as convenções, nossa jaula. Seguimos contando a mesma história através de outras peças e também do cinema, da literatura, da música. Mas a fórmula que o Asdrúbal encontrou naquele finalzinho de ditadura foi inovadora, eles fundaram uma nova escola do humorismo no Brasil. Muito melhor que o pastelão, que o jargão insistentemente repetido, essas coisas das quais nunca achei graça, pois não me faziam pensar. Gosto de rir com a boca e com o cérebro.

Já quem foi testemunha ocular deste momento do teatro brasileiro não pode perder. O livro traz fotos e depoimentos dos envolvidos, entre eles de Hamilton Vaz Pereira, mentor do grupo, que conta em detalhes como foi concebido o espetáculo, qual a contribuição dos atores, como eram os ensaios, quais foram as dificuldades e prazeres até alcançar aquele resultado impactante que arrebatou o Rio de Janeiro e demais capitais. Eu li como se fosse uma reportagem e com o espirito de “recordar é viver”, e não para julgar se o texto permanece original – até porque não acredito mais no quesito originalidade, somos todos repetentes. Mas Trate-me Leão não era repetência: era susto, novidade, um jeito revolucionário de dizer as coisas. Pela raridade com que isso ocorre nos dias atuais, é um bálsamo a memória e a celebração que o livro promove.


Domingo, 18 de abril de 2004.



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